Visitámos o Guilty, a nova coqueluche do Chef Olivier. Situado na zona nobre da cidade, como aliás, a maior parte dos restaurantes assinados por este Chef, o Guilty tem mais de bar do que de restaurante. E tudo faz crer que é essa componente mais nocturna que lhe vale os 2.000 fãs com que já conta no facebook.
O Jantar
O tema do menu, à volta dos pecados capitais, enquadra-se que nem uma luva, neste restaurante cujo forte são as pizzas, hamburguers e pastas. A descrição de cada prato não deixa dúvidas de que pelo menos o pecado da gula vamos cometer daí a nada. Uma estratégia de marca bem consolidada.
Para entrada, pedimos uma Tábua Mediterrânica, "composta de rúcula, tomate cereja de rama, com queijos parmesão e mozzarela, e presunto de Parma, fuet, saucisson e foië-gras", e também uma focaccia. Embora tenha cumprido o seu dever, não deslumbrou, em particular a focaccia, bastante fraquinha. O foië-gras que também estava presente deixou muito a desejar, especialmente quando comparado com o do quase vizinho
Rubro Avenida.
Para o prato principal, decidimo-nos pelas pizzas, tendo cada um escolhido o seu pecado - Luxúria, Gula, Vaidade e Preguiça. São todas de massa fininha e de aspecto prometedor. A minha, em particular, uma calzone recheada com alheira e grelos, desiludiu porque o equilíbrio entre o recheio e a massa não foi bem feito. Tinha muita massa para o que era suposto ser uma pizza fininha e a mistura de sabores que se esperava do recheio não surpreendeu. A única que reuniu maior consenso como sendo boa e diferente, embora merecesse que lhe retirassem o pepperoni/chourição para ser ainda melhor (não seria enjoativa), era a Luxúria, que contém trufas pretas pelo meio da selecção de queijos. Quando comparadas, por exemplo, com as da
Pizzaria Casanova, percebemos que ainda têm muito que caminhar.
A sobremesa foi o chamado "flop". Uma mistura de sabores incompreensível e quase intragável num chamado "nems de maçã". Tinha maçã e uma mistura de limão e hortelã e foi um dos momentos em que senti compaixão pelo Chef Gordon Ramsay quando tem de provar coisas estranhas. E podia ser só de mim, mas não, ninguém apreciou. O coulant de chocolate (ainda bem que pedimos duas sobremesas) salvou o momento, mas não por ser extraordinário - simplesmente porque chocolate resulta sempre, especialmente depois de um flop...
Ambiente, Serviço e Outros Pormenores
À chegada, logo algo que me causa uma urticária profunda - pouca iluminação. Eu odeio comer às escuras, e a iluminação do Guilty, à hora do jantar, é a mesma que servirá o espaço quando este se "transforma" em bar numa hora mais tardia. Ainda tentei pedir à empregada de mesa que acendesse os focos (que existiam, mas aparentemente, só para enfeitar), ao que ela me respondeu que não podia e que tínhamos a vela na mesa. Uma vela, daquelas bem pequeninas, para iluminar uma mesa de quatro. Senhores - é pouca iluminação e não venham com o argumento do estilo, porque não é suficiente. No mínimo, estabeleçam uma hora para se alterar a iluminação do momento restaurante para o momento bar e informem os clientes devidamente.
A decoração é simples e tenta tocar o rústico, sem exageros. Embora não deslumbre (afinal muitas das coisas são IKEA), é acolhedora. No entanto, é pouco funcional - a nossa mesa, em vez de cadeiras, tinha dois cadeirões de 2 lugares, de pele, pesadões, que exigiam que se arrastasse a custo a mesa ou os cadeirões para se conseguir sair - e isto aplicava-se até ao mais elegante de nós os quatro... Ficávamos literalmente "trancados" quando nos sentávamos, o que é pouco agradável.
Infelizmente, sentimos também que há que investir na formação do pessoal de mesa. Ficar de cara fechada face a um pedido que lhe possa parecer incomum não é de bom tom. Tal como não é estender o prato a um dos clientes para que seja ele próprio a colocá-lo na mesa. É verdade, não são erros gravíssimos, mas vamos lembrar-nos que se trata de um restaurante do Chef Olivier, e julgo que não é preciso acrescentar mais.
Ao lado do Sushi Café Avenida, partilha com este alguns dos pormenores - o sinalizador electrónico para chamar os empregados ou pedir a conta, as casas de banho (que ficam loooooonge), e também o facto de não se conseguir perceber se há ou não espaço de não fumadores. Sinalização a respeito de se poder fumar ou não, não está à vista de ninguém. Ficámos sem saber o que nos diriam se pedíssemos uma mesa para não fumadores, mas também ninguém se deu ao trabalho de nos perguntar. Eu sou pouco tolerante a comer com o fumo dos outros, e acho que não sofremos muito com isso, mas estou em crer que algo devia estar mais explícito por ali...
Outro ponto incompreensível é a questão da água. O Guilty anuncia no seu facebook, com muito orgulho e atitude pseudo-ecológica que a água que utilizam é obtida a partir da rede pública, sendo filtrada e purificada para servir aos clientes. E seria tudo muito bonito se eu, como cliente, pudesse optar por uma água engarrafada (não servem!). Porque cobrar 2,00 € por uma garrafa de água da torneira, não disponibilizando outras opções, não é caro, nem é barato, é um assalto à mão armada. E o sabor é simplesmente terrível.
Em termos de preço, é adequado e o expectável para aquilo que se dizia ser uma opção low-cost do Chef Olivier. Em comparação com algumas pizzarias da cidade, porém, há a certeza que por um preço menor se obtém muito melhor qualidade.
Ficámos com vontade de voltar apenas para experimentar o ambiente bar que toda a gente elogia. Para almoçar ou jantar, novamente, não dá muita vontade de regressar. Não é o melhor cartão de visita que o Chef Olivier poderia oferecer. No entanto, não perdi ainda a curiosidade de experimentar, um dia, as especialidades de Olivier no seu habitat natural (Restaurante ou Avenida) ou na sua experiência oriental, o Yakuza.
data da última visita: 18.julho.2011
preço por pessoa: 25 €
referente a: tábua mediterrânica, focaccia, 4 pizzas, 2 sobremesas
eau Gilty, cola, imperial e 1 café
Guilty By Olivier
Rua Barata Salgueiro, 28, Lisboa